terça-feira, 23 de abril de 2013

fusca é amor

Então que um sonho que vira problema pode me fazer ver o que é o amor.

Eu sempre quis ter um fusca. Achava que seria um dos hobbies de aposentada. Contingências e coincidências o fizeram chegar bem mais cedo para uma vida com bem menos tempo do que ele exige.
E eu tenho para mim que a gente não diz não para contingências ou coincidências. É a vida dizendo como ela quer ser com você. Que nem se fosse conselho de mãe, você escuta. Ou pelo menos é melhor se escutar.

O fusca veio para fazer dinheiro em cima de uma máquina cheia de luxos que, hoje sei, não precisava. O fusca veio para termos dois carros, porque agora somos dois que dividem o que já foi uns. O fusca veio para ajudar na festa e na rotina do amor, portanto. O fusca veio para ajudar.

Mas a verdade é que ele atrapalha muito. O fusca quebra semana sim, outra não, outra de novo, a seguinte é sorte. O fusca rende histórias engraçadas, como a marcha sair na mão bem na hora de guardá-lo na garagem para o período de viagem - mais garantido que ninguém vai tirá-lo do lugar impossível, né? E o fusca rende manhãs de raiva, como hoje, quando se acorda atrasada e apressada para acelerar e ouvir o cabo do pedal romper. É, o fusca rende bons conhecimentos de mecânica...

É mais verdade, porém, que o fusca, antigo e simples, barulhento e charmoso, curvo quando tudo é reto, lento quando tudo é pressa, rende reflexão.

Talvez eu nunca tenha amado antes. Porque nunca havia sido capaz de abrir mão do meu bem-estar em nome de outro e, ainda assim, me sentir bem, e não apenas boa.
Talvez eu nunca tenha amado antes. Porque nunca havia sido capaz de colocar outra pessoa em primeiro lugar, quiçá lado a lado.
Talvez eu nunca tenha amado antes. Porque nunca havia sido capaz de ficar em paz mesmo quando as circunstâncias parecem se esforçar para me tirar do eixo.
Talvez eu nunca tenha amado antes. Porque nunca havia sido capaz de perceber a riqueza do simples, a força de se aceitar limitado, o prazer em ceder.
Talvez eu nunca tenha amado antes. Porque nunca havia sido capaz de me render e me entregar, a alguém e ao que vier.
Talvez eu nunca tenha amado antes. Porque nunca havia sido capaz de ser grata até ao que dá errado.
Talvez eu nunca tenha amado antes. Porque nunca havia tido a coragem de viver um sonho no exato momento em que ele se configura em mim e o mundo se abre para que ele aconteça.
Talvez eu nunca tenha amado antes. Porque nunca havia encontrado você.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O problema

Meu amor, eh que você mudou. E eu mudei também. Ou talvez eu nunca mude. Talvez eu quisesse aceitar que eu nao vou mudar, talvez eu nao quisesse. O problema, meu amor, eh que você nao mudou. E eu mudei também.

domingo, 13 de novembro de 2011

Mas nao entendi:

Você gostou dele e resolveu fugir?
Tinha medo do som de meu coração de perto ser ensurdecedor.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Tum-Tum

No silencio do quarto, um som preenche meus ouvidos: tumtum-tumtum-tumtum.
Estou viva!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Cutucar

As vezes a gente acha que já passou. Que cicatrizou completamente, apesar da marca exposta em branco na pele morena.
Dai alguém vem e cutuca. Sempre com a melhor das intenções, eh claro. E volta a sangrar. Porque era casca em ferida.
A ferida estava ali, coberta e esquecida. Mas ela estava ali.
Isto eh uma ferida? Deixa eu ver. Dói quando encosta assim? Coca? Arde? Deixa eu ver.
Sim. Coca, arde e dói. Nao cutuque, por favor. Esta cicatrizando. Acontece que o processo leva seu tempo. E, veja, eu nem sabia: parece que eu tenho problema de cicatrizacao.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Bláblá

foi assim
eu fui deitar
daí pensei em você
daí meu coração começou a bater bem forte
daí ele foi expandindo
e depois ele explodiu
e depois ele sumiu
e ficou um buraco no lugar
ouvi dizer que os não poetas chamam isso de saudade
mas não tenho certeza

e os poetas, chamam isso de quê?

os poetas preferem não dar nome as coisas
seu trabalho é descrever
e, assim, fazer as pessoas se identificarem
porque sentir todo mundo sente
mas o nome das coisas é sempre muito arbitrário

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

paixão azedinho-doce

não se encontrava disponível em qualquer padaria ou banca de jornal
era caro, para uma criança que vive de mesada
era pouco, para uma criança que, se pode, quer encher a boca
o sabor passava rapidamente
e ainda era estranho: uma mordida ardida, uma mordida doce

o cheiro, a textura, a consistência, cada onda de sabor
se repetem na memória a cada longo piscar de olhos
suspiro

inesquecível
saudoso

e mesmo sabendo que isso não se engole
e mesmo sabendo que isso não alimenta
e mesmo sabendo que a bola estoura
minha boca anseia azedinho-doce

seu beijo

quinta-feira, 30 de junho de 2011

eu sou mais eu

com meus segredos que não conto sequer a mim e minhas indiscrições que divulgo a qualquer um
eu sou mais eu

com minha parca razão e minha intensa emoção
eu sou mais eu

com tudo que me faz simples e tudo que me constrói emaranhado
eu sou mais eu

com minha força e minha fragilidade
eu sou mais eu

com a beleza e a feiúra que convivem em meu ser
eu sou mais eu

com minha verdade que cura e a minha verdade que fere
eu sou mais eu

com todas as dificuldade e toda sorte que me cabe
eu sou mais eu

com minhas várias dúvidas e poucas certezas
eu sou mais eu

aceitando meus erros e vivendo meus acertos
eu sou mais eu

assim, do jeito que eu sou